Os medos da criança

O medo é uma emoção básica, que coloca o nosso organismo em sobre-alerta e o prepara para fugir e/ou defender-se perante a percepção de perigo. A generalidade das crianças passará por algum sintoma de medo durante a sua infância, em especial as raparigas que, no entanto, têm uma maior facilidade em ultrapassá-lo. Esta maior facilidade estará, provavelmente, ligada a uma maior capacidade em exteriorizar sentimentos e emoções que, em consonância com a ajuda dos pais, lhes possibilita uma melhor compreensão dos seus sentimentos, e leva a uma procura mais eficaz de estratégias para lidar com os mesmos.

Desta forma, ao falarmos de medos, devemos encará-los enquanto emoção saudável, com uma função adaptativa: alertar para os perigos que rodeiam.

Os medos estão ligados a etapas específicas do desenvolvimento. Apesar de serem tarefas desenvolvimentais que terão de ultrapassar, o modo e a intensidade com que os sentem varia de criança para criança, de acordo com a sua personalidade, a dos pais, entre outros factores. Com o crescimento e correspondente maturação cognitiva e emocional, a criança, com a colaboração dos pais, vai encontrando estratégias eficazes para lidar com os medos, pelo que, na sua maioria, acabam por desaparecer.

Nos primeiros tempos de vida duma criança, o seu medo está muito ligado ao receio de perda do seu cuidador, a sua figura de referência (geralmente a mãe), denominando-se de medo ou ansiedade de separação. Por volta dos 7/8 meses de vida, os bebés adquirem a capacidade de distinguir os rostos familiares, em especial o da sua mãe, em contraste com os que desconhece. Surge aqui uma fase denominada de Angústia do Estranho, caracterizada pela manifestação, por parte da criança, de medo ou ansiedade perante a presença de estranhos, ou pessoas com quem tenha menos contacto. Nesta fase, as crianças ainda não adquiriram uma competência, a da "permanência do objecto", que consiste no saber que, quando algo (ou alguém) sai do seu campo de visão, pode voltar. Para o bebé, quando tal acontece, ele sente medo por esse objecto deixar de existir.

A partir dos dois anos, é frequente a criança começar a ter medo de ser abandonada pelos pais e, consequentemente, de qualquer separação que possa ocorrer. É igualmente nesta fase que se verifica um aumento do medo dos animais, que costuma perdurar até por volta dos quatro anos.

A imaginação assume um papel preponderante nos medos das crianças e é, com o aproximar dos três anos (altura em que a imaginação se torna mais rica e atinge um maior grau de desenvolvimento) que é potenciado o surgimento do medo do escuro, dos monstros, fantasmas, ladrões, entre outros. Este é um dos medos mais comuns entre as crianças, sendo transversal a várias culturas e civilizações. Geralmente surge entre o terceiro e o sexto ano de vida da criança, e é habitualmente ultrapassado até à entrada para a escola. Ocorre com especial incidência na hora de dormir, momento em que a criança se sente "desprotegida", pois confronta-se com a separação física dos pais, bem como com a segurança que esta presença lhe oferece.

Com o atingir dos seis anos de idade, a criança atinge uma fase de desenvolvimento que lhe permite encarar a morte como algo irreversível, perdendo o seu lado fantasioso e assumindo uma vertente mais concreta, o que lhe provoca medo da sua própria morte, bem como a das suas figuras de referência. Verifica-se aqui uma transição do medo de separação para o medo de morte. Aí, apresenta uma associação de morte a coisas concretas, como a uma pessoa, a caixões, cemitérios, etc.

Paralelamente à entrada para a escola, e ao longo do seu curso, surgem medos ligados a esta nova etapa da sua vida, bem como aos desafios a ela associados. O medo de se expor, ter de falar nas aulas, ir ao quadro, as histórias contadas de agressão dos mais velhos, entre outros, causam apreensão às crianças. Aqui os medos estão muito ligados à identidade da criança, à sua auto-estima e sentimentos de insegurança. Poderá surgir o receio de ser diferente, ser gozado pelos outros.

Esta insegurança e medo assumem um papel marcante num espaço como a escola, pois estes sentimentos poderão transmitir à criança a sensação de impotência perante a resolução de dificuldades que até pode percepcionar como não perigosas, mas que apenas não se sente capaz de as ultrapassar. Nestes casos, é essencial que os pais e/ou educadores saibam escutar a criança, desmistificar esses sentimentos e, sobretudo, ouvi-las e ajudá-las no sentido de encontrar estratégias eficazes para a resolução dos seus medos.


OS PAIS PODEM AJUDAR

É impossível os pais evitarem o sentimento de medo por parte dos seus filhos (o que também não seria salutar). Ao invés disso, podem ter um papel preponderante no auxílio da procura de estratégias que permitam à criança lidar convenientemente com os obstáculos com que é confrontada e lhe permitam ultrapassar o medo.

Os pais ao se depararem com os medos dos seus filhos, naturalmente podem manifestar confusão e algum desconhecimento sobre a forma mais adequada para lidar com a situação. Antecedente à procura de estratégias para ultrapassar esses medos, é fundamental que os pais validem e respeitem os sentimentos dos filhos, e tal passa por nunca os ridicularizar ou desvalorizar. Os medos são fruto do processo de desenvolvimento da criança, o que acarreta novos desafios. São um factor positivo, e é dessa forma que deverão ser encarados, apesar do filho ainda não ter atingido um nível de maturação que lhe permita enfrentar esse medo da forma mais eficaz.

O bem estar emocional da criança é favorecido pela existência de cumplicidade com os pais. A criança ao ter medo, enfrenta o anseio de não o conseguir ultrapassar, bem como o de ser a única que passou por este sentimento. O acto dos pais relatarem à criança que também eles passaram por situações semelhantes, inclusive uma similar à que o filho sente, fá-las sentir apoiadas e aceites, transmite-lhes a possibilidade de vencerem os seus medos e serem "grandes e fortes" como os seus pais. Procure explorar com os seus filhos formas de resolver as situações, podendo também dar exemplos de como conseguiu resolver os seus próprios medos.

A promoção do diálogo entre pais e filhos é uma das melhores "ferramentas" que se pode transmitir aos filhos. Essa abertura ao diálogo, permite deixar uma "janela aberta", o que facilitará à criança a procura dos pais (ou outras figuras de referência) quando se sentir ameaçada, ou estiver a lidar com sentimentos perante os quais sente dificuldades em lidar. Só o acto da criança falar e explicar os seus medos aos pais, serve de alívio e, além de promover uma maior aproximação entre os pais e os filhos, é um importante passo na procura conjunta de soluções para os problemas.

Uma estratégia universal perante uma situação percepcionada como perigosa é a fuga ou o evitamento. Torna-se importante a consciencialização que, só através do enfrentar dos desafios, é que conseguimos ultrapassá-los. Recorrendo à aceitação e validação dos sentimentos dos filhos, cabe aos pais ajudarem a criança na procura da forma mais eficaz de resolução do problema, ao invés da fuga, frequentemente a primeira resposta à questão ansiogénica. Os medos, sendo marcadores do desenvolvimento da criança, funcionam como tarefas desenvolvimentais, às quais cabe à criança ultrapassar, resultando na promoção da autonomia da criança, no seu desenvolvimento emocional, que consequentemente se repercute ao nível do seu auto-conceito. O enfrentar atempado dos medos evita que, a longo prazo, estes possam possuir uma dimensão patológica resultante em fobias.


IDEIAS ÚTEIS

Ajudar a vencer o medo do escuro:

Reconheça e legitime o medo da criança. Tente compreendê-lo e, em conjunto, explorar a causa dos seus medos, bem como formas de os ultrapassar;

Procure transformar o momento de deitar numa ocasião de prazer e de relaxamento. Conte-lhe histórias ao adormecer;

A existência de rituais ajudam a criança a organizar-se e a orientar-se. Uma hora certa para deitar, e a criação dum ritual de preparação para o momento de deitar, como o beber leite, vestir o pijama ou lavar os dentes podem ser facilitadores. O importante é a criança interiorizar que um determinado acto precede o momento de ir deitar;

Mostre cumplicidade com os seus filhos, falando-lhes dos seus medos quando era criança, e até mesmo de alguns que sente em adulto (tendo em conta a adequação dos conteúdos à idade da criança);

Deixar a porta aberta do quarto pode ser um bom auxílio;

A existência duma luz de presença é um "amigo" maravilhoso. Se a idade da criança o permitir, ter junto a si uma lanterna que pode acender quando sentir medo. Este medo pode ajudar a criança a sentir que possui uma "arma" para se proteger;

A possibilidade da criança ter na sua cama um boneco ou brinquedo que goste muito pode contribuir para que se sinta mais segura e confiante;

O medo do escuro não se enfrenta no mundo do concreto, por isso torna-se desnecessário dizer-lhe que papões não existem. Este é um jogo que se joga ao nível da imaginação, e por isso os pais terão que participar a esse nível. Ajude a criança a procurar os monstros que julga escondidos no armário, assuste os fantasmas com uma lanterna, conte-lhe histórias em que os heróis venceram os monstros, use a imaginação e a fantasia...

30 comentários:

Maria disse...

Adorei este artigo!Algo tão refrescante e sério!Parabéns!
Acho que fiquei com menos medo dos medos dos meus filhos.

Dejando huella disse...

Fico contente por perceber que ando a fazer bastantes coisas como deve ser. Penso que a minha filha é um ser humano com tantos direitos quanto eu e que ambas nos devemos respeito recíproco. Nunca lhe disse a famosa frase do "tu não tens quereres", e quando começou com medo do escuro, simplesmente lembrei-me do medo que também eu tinha e coloquei uma luz fraquinha no quarto. Agora deita-se e adormece sem uma única lamentação.

Blog muito útil, sinto-me mais amparada.

Katy disse...

Gostei muito de ler este artigo e não só :) ), mostra muito bem o que os pequenotes sentem e mais importante, os conselhos para os ajudar nessas fases que fazem parte do desenvolvimento...
Tenho às vezes mais dificuldade em lidar com os medos dos "meus" meninos pois ainda se expressam mal e muitas vezes nao me conseguem transmitir ao certo o que os perturba. No entanto, falo sempre muito com eles quando os vejo assustados e tento criar o nosso ambiente acolhedor na tentativa de os tranquilizar. E muito importante, como foi dito: a rotina, a segurança que ela trás em qualquer altura, mais ainda nestas!

Luìs Manuel Ramalhosa disse...

"Os jogadores de Rugby são dos desportistas mais inteligentes do Mundo, quem mais se atreveria a jogar com uma bola oval“

michele braga disse...

eu adorei esse site entrei pr ver se achava uma coisa muito diferente do q encontrei + fiquei surpresa com os textos aqui escritos muito bom.. fez eu interagir + com minha filha e ver q ñ estava sendo uma boa mãe ..
agora todos os dias vou entrar e salvar os textos em meu PC para meu amrido ver,ler e entender ..

obrigada pela orientção.. atenciosamente e fã do site agora ..michele braga,mãe da maria eduarda.

Anónimo disse...

E por experiencia propria, Bruno,se a criança tiver um acompanhamento adequado por parte dos adultos que os rodeiam estao a evitar muitas consultas ao psicologo na idade adulta...a sério...bjs da té

Rita Costa disse...

Seu artigo é muito bom!
As "IDEIAS ÚTEIS" são super validas já que nem todos conseguem lidar bem com essas situações.

Parabéns, Bruno!
Não só por essa portagem, mas por todo o blog que é de ótimo conteúdo. Um abraço!

Andrea Garcez disse...

Adorei o artigo e todo o blog. Sou Pedagoga e Psicopedagoga, no Brasil.Também tenho um blog e vou colocar o seu na minha lista de links. Se quiser faça o mesmo (www.psicopedagogaandreagarcez.blogspot.com)
Mais uma vez, parabéns pelo blog!
Um abraço,
Andrea

icommercepage disse...

Muito boa, sua abordagem em psicologia infantil, na infência decidimos o que queremos para nossos filhos, ser uma pessoa honesta ou um bandido.
No Brasil, em algumas comunidades, há muito o que se fazer em infra-estrutura. A Psicologia pode ajudar muito.

Anónimo disse...

Gostei muito do seu texto, grata por disponibilizá-lo.
Minha filha tem 9 anos e conta-me do seu medo/desconfiança que tem da infidelidade dos pais.
Somos casados, vivemos juntos, temos um relacionamento que me parece bastante saudável, e como compreenderá sentimos - eu e meu marido - imensa dificuldade em ajudá-la a superar isso. Tem algum conselho para nos dar?...

Psicólogo Bruno Pereira Gomes disse...

Com enorme frequência,é difícil, senão mesmo impossível, descobrir a razão dos medos das crianças.

Na sociedade actual, na qual a vossa filha se insere, é raro uma criança de 9 anos que não tenha um colega de escola, de A.T.L., familiar, cujos pais estejam divorciados, ou em processo de separaração.

Este é um medo comum, por que várias crianças passam. Além do mais, qualquer casal, por mais saudável que a relação seja, tem os seu desentendimentos (o que até pode ser considerado saudável num casamento, dependendo da forma como são resolvidos).

O facto da vossa filha vos manifestar esse medo poderá não ter nada a ver com o sentir o vosso casamento em risco. No entanto, existem (pelo menos) dois factores positivos neste partilhar por parte da vossa filha. O primeiro, é que ama os pais, e que quer continuar com ambos na sua dinâmica familiar. O segundo, é que confia nos pais o suficiente para partilhar convosco os seus medos. Este confiar, e esta “janela” de comunicação é importantíssima, pois á através dela que os pais podem ajudar os filhos a superar as mais diversas situações que lhes causam angústia, em que os medos ocupam um lugar de destaque.

Desta forma, tendo em conta que a vossa filha dá o passo positivo de partilhar convosco o seu medo, será importante que validem a angústia da vossa filha. Esse medo é natural, e serão os pais que a deverão ajudar a sentir-se bem com os sentimentos que possui. Frases como "É natural que sintas medo de...", "Quando tinha a tua idade, também tive medo que os meus pais se separassem", ajudam a criança a sentir-se aceite.

Façam a criança sentir que não é a única que sente tal medo, muitas crianças o sentem, e manifestem que se sentem felizes por a criança partilhar os sentimentos com vocês. Desta forma, estarão a promover um comportamento que será muito útil ao longo do desenvolvimento da vossa filha, bem como a desenvolver a sua auto-estima.

Algo que ocorre frequentemente, não com o intuito de prejudicar a criança, mas que não se revela o meis correcto, é a desvalorização dos seus sentimentos. Pode ser uma criança, mas o medo que sente é real, e muito importante para ela. Desta forma, validando o seu medo, dão o primeiro passo para que a vossa filha sinta que é natural o que sente, e esse é o primeiro passo para o ultrapassar, e sentir-se confiante.

Sentem-se com ela, conversem sobre o seu medo, procurem descobrir o que poderá ter causado esse sentimento, e manifestem o amor que os pais sentem um pelo outro. Naturalmente, o medo não desaparecerá dum momento para o outro, mas vai diminuindo gradualmente (provavelmente podendo até ser substituído por um novo, faz parte do desenvolvimento). É comum as crianças do sexo feminino manifestarem mais medos, mas também os costumam ultrapassar de forma mais eficaz, e tal deve-se em muito por, com grande frequência, serem capazes de expressar com maior facilidade os seus sentimentos do que as do sexo masculino. Essa cumplicidade com os pais, o sentir-se apoiada, será o principal factor que promoverá o ultrapassar desse medo.

Gostaria apenas de deixar uma nota final. Os comentários e ideias apresentados têm como fundamentação o desenvolvimento infantil, sem um conhecimento da criança e da vossa história familiar. Estes apenas se destinam a servir como contributo para lidar com a problemática, não substituindo se necessário um diagnóstico e uma intervenção. Caso as dificuldades da sua criança se prolonguem ao longo do tempo, e surjam novas, não hesitem em levá-la a um profissional especializado (Pediatra, Psicólogo).

Dreamlu disse...

Olá Bruno! Parabéns pelo seu Blog! Gostei imenso! Adorei este artigo, a forma como explica e desmistifica algo tão complexo como o Medo.Obrigado pela partilha.Vou colocar o seu link no Jardim...

Teresa disse...

Parabéns Bruno, em excelente espaço de partilha para todos.

Queri falar-lhe do medo da minha filha e pedir um conselho. Ela tem agora 20 meses, está na creche desde os 6 e sempre teve medo das crianças mais pequenas. Agora já soxializa bem com as da sala dela, mas sóa agora e tb porque se foi embora um menino que lhe ouxava sempre os cabelos, mas chora sempre que se aproxima dela uma crainça que ela desconhece e fica com o coração a saltar-lhe para fora. Ela fala muito e nós conversamos o possível sobre isto, mas é tão pequenina... por outro lado custa-me ela não socializar mt com os seus pares, já que com os adultos ela adora estar. Como posso ajudá-la? Obrigada

Psicólogo Bruno Pereira Gomes disse...

O medo de desconhecidos é muito frequente nas crianças da idade da sua filha. Porém, apesar de ser um medo comum, verifica-se da parte da sua filha uma resposta que poderá ser desproporcionada frente a um estímulo, adoptando ela a fuga a situações que considera ansiogénicas (contacto com as outras crianças).

Fruto da pouca informação disponibilizada, é impossível verificar a intensidade e o prejuízo que a ansiedade causada por esse “objecto” ansiogénico causa na quotidiano da criança. Seria importante que, em conjunto com a equipa pedagógica da Instituição que a sua filha frequenta, verificassem os constrangimentos e o desconforto que este medo provoca no comportamento da vossa filha.

Quanto às causas que poderão estar na raiz desse evitamento, elas são frequentemente difíceis de descortinar numa fase tão precoce de desenvolvimento, especialmente quando se verifica a inexistência de informação, como é o caso. Essas causas poderão estar ligadas a um acontecimento vivido como traumático pela criança, a diferentes estilos parentais e modos de comunicação, diferentes perspectivas pedagógicas que promovam esse evitamento, à personalidade da criança, entre outras.

Estas dificuldades são igualmente muito comuns em crianças filhas de pais portadores de Fobia Social, caracterizados por uma grande ansiedade. A vossa filha, e o seu comportamento, necessitam de ser entendidos como fruto da combinação única da “herança” dos seus pais, da educação que lhes deram até à presente data, da sua personalidade, do seu relacionamento com outros adultos significativos, outras crianças e com os familiares.

Ideias práticas:

- As crianças são fruto dos seus pais, e os principais modeladores da sua personalidade serão os progenitores. A insegurança duma criança, que frequentemente se manifesta no contacto com terceiros, relaciona-se em muito com os diferentes estilos de relacionamento parental. Vários estudos têm apontado que pais demasiado rígidos ou permissivos em excesso poderão causar prejuízo nas capacidades de socialização dos seus filhos, sendo o modo democrático de controlo parental (apesar de existir uma definição clara dos limites, os pais sentam-se e conversam com as crianças sobre as decisões a tomar) o que fornece as características mais propícias para o desenvolvimento de competências sociais. Aos pais, recomendo sempre que procurem realizar uma reflexão sobre a sua forma de educar, e verificar se poderá estar relacionado com as dificuldades sentidas pela criança. De igual forma, problemas familiares poderão estar relacionados com a problemática assinalada.

- Com grande frequência ocorre também que, de forma inconsciente, os pais promovem mais a autonomia de crianças do sexo masculino, ao invés das do sexo feminino, que se tornam mais dependentes e, como consequência, mais ansiosas. Promovam a autonomia da criança, deixem-na explorar, conhecer novos “mundos”. Estes processos de autonomia são importantes, na medida em que fornecem à criança a possibilidade de acreditar que é capaz de vencer as dificuldades com que se deparam, sem terem sempre de recorrer aos pais.

- Não procurem ser muito rígidos com a criança no sentido de procurarem controlar todas as suas actividades.

- No caso de se tratar de uma família com poucos laços sociais, procurem realizar esforços no sentido de se relacionarem com outras famílias com crianças da mesma idade. Funcionem como modelos para a vossa filha, relacionando-se com outros adultos, ensinado à criança modos de interacção, de relacionamento e afectividade.

- Uma estratégia que não tem resultados benéficos, mas que mesmo nós adultos frequentemente utilizamos, é a resposta de evitação perante os estímulos ansiosos. Incentivem a vossa filha a enfrentar as situações temidas. Não esperem que vença as dificuldades dum dia para o outro. O truque é, muitas vezes, “dividir” as tarefas ansiogénicas da mais fácil para mais difícil. Organizem situações em que a criança tenha de ser confrontada com o seu medo (contacto com desconhecidos). Comecem por situações em que seja fácil ela ser bem sucedida, provavelmente será melhor em locais em que se sinta familiarizada, até mesmo em vossa casa, e apenas com uma criança. Se necessário, fiquem a seu lado para a confortarem e securizarem. Transmitam à criança o sentimento de que será bem sucedida, dêem-lhe essa confiança. Quando estes desafios forem coroados de sucesso, felicitem sempre a criança, manifestando o quanto sentiam que ela seria capaz. Quando sentirem que a criança já se sente segura, passem ao nível seguinte, aumentando a dificuldade do estímulo a que submetem a criança. A ideia é ir gradualmente, de forma a que a criança se sinta bem nessas tarefas, e consiga ser bem sucedida.

- Conversem com a vossa filha sobre as situações que lhe causam medo. Apesar da sua idade, e de a linguagem ainda estar num processo de desenvolvimento, procurem adequar o discurso à sua maturidade, e transmitam-lhe que também sentem medos, que ela não é a única que passou (ou passa) por essa dificuldade. Em nenhuma ocasião gozem ou ridicularizem a criança, quer em grupo ou em privado.

- Procurem desenvolver a auto-estima da vossa criança. Recomendo a leitura do artigo http://aconversacompais.blogspot.com/2008/03/como-desenvolver-auto-estima-nas.html, pare verem algumas ideias práticas. Algumas poderão não se enquadrar à faixa etária, mas outras sim.

Por fim, gostaria de colocar a já tradicional ressalva. A vossa criança está numa fase muito precoce de desenvolvimento, pelo que o que me transmitiu, na pouca informação recebida, poderá não apontar para nenhuma situação problemática. Porém, níveis de ansiedade elevados, de evitamento social, quando causam prejuízo no desenvolvimento duma criança, poderão necessitar de intervenção adequada e atempada. As anteriores ideias são dadas tendo em conta a experiência e o grau de conhecimento do desenvolvimento infantil. Fruto da inexistência de conhecimento directo da sua filha, se sentir que as dificuldades continuam, ou se aumentam de intensidade, recomendo sempre o diálogo com um profissional especializado (Pediatra e/ou Psicólogo).

Psykhe disse...

Parabens pelo artigo.
Estou a começar a criar um blog que se irá focar mais na area onde estou inserido, Psicologia do Desenvolvimento e Educaçao. Considero que todo o cuidado é pouco quando lidamos com o ser mais indefeso - as crianças.

Maria Amaro da Silva Andrade. disse...

Bruno o seu artigo 'Os medos da criança' é excelente! principalmente para nós mäes que passamos por certa situaçöes e näo sabemos como lidar. Tenho uma filha de 6 anos que se recusa a falar com qualquer pessoa que näo convive com ela na mesma casa. Estuda, mas näo conversa com a professora, com os colegas e näo lê. Sinto-me angustiada pois lidam com ela como se fosse muda. Ela é prematura de 7 meses e ficou 15 dias na UTIN. Outro fato foi que sua primeira professora com quem mantinha conversas tímidas, sofreu acidente e teve que se afastar. Nesse período ela conversava com parentes, com colegas escolhidos a dedo por ela, mas com pessoas näo proxímas ela mantinha-se calada. E hoje chegou a esse estágio. Espero que possa me ajudar. Aguardo alguma informaçäo, até breve!

Psicólogo Bruno Pereira Gomes disse...

A abordagem aos medos da criança necessita ter sempre em conta o grau de intensidade do medo, e o prejuízo que pode causar (ou causa) no desenvolvimento de uma criança. Os sintomas que me refere parecem estar a causar já prejuízo no desenvolvimento da sua filha, nomeadamente na área da socialização e, muito importante nesta faixa etária, na aprendizagem académica.

O melhor conselho que lhe posso transmitir passa pelo encaminhamento da sua filha para uma consulta de Psicologia. Dessa forma, poderá ser realizada uma devida avaliação da problemática, e delineada uma correcta intervenção. Aconselho igualmente brevidade nessa intervenção, de forma a não prejudicar significativamente o desenvolvimento da criança.

Maria Idalia disse...

O meu filho tem 10 anos e tem problemas de socialização. É frequentemente gozado pelos outros, não o deixam participar nas suas brincadeiras, fazendo com que ele se isole no seu mundo. Só há pouco tempo me apercebi deste problema em pleno. Por vezes achava que não seria tanto, que me preocupava á toa, mas de facto ultimamente tenho constatado que ele tem que lidar diariamente com esta situação. Sofro por ele, e não sei como posso ajudá-lo a libertar-se deste problema Gostava de ouvir a sua opinião. Obrigado

Psicólogo Bruno Pereira Gomes disse...

A descrição que me transmite não permite verificar qual a (s) causa (s) desta dificuldade. De facto, tal nunca seria possível efectuar através de uma mensagem escrita. Poderei aconselhar a leitura do artigo “Como desenvolver a auto-estima das crianças” http://aconversacompais.blogspot.com/2008/03/como-desenvolver-auto-estima-nas.html, poderá encontrar algumas ideias que se apliquem, e que possam ajudar, no caso de se verificar uma baixa auto-estima no seu filho. No entanto, é fundamental saber as razões concretas destas dificuldades do seu filho que, além dos prejuízos que já lhe causam presentemente, poderão ter tendência a agravar-se se nada for realizado. É importante verificar se esta é uma situação recente, causada por um acontecimento específico, ou se as dificuldades já se verificam há um longo período de tempo. Aconselharia uma rápida reunião com a Directora de Turma de seu filho, bem como a consulta de um profissional especializado (Pediatra, Psicólogo).

Anónimo disse...

meu filho esta em uma maternidade a 4 meses por naçer prematuro ja pegou 5 enfequiçao por esso esta com uma festola no pulmao o que voces indiqaria para nos belem do para

Anónimo disse...

Olá meu filho tem 4 anos e estuda em uma escola onde estamos encontrando muitas dificuldades, pois desde que entrou aos 3 anos de idade sempre imitava as outras crianças para se aproximar ainda o vejo a fazer isso em alguns casos tanto na escola já explicamos que as outras crianças não gostam. Agora tenho percebido que ele brinca muito sozinho e tem a mania de criar outras palavras durante suas brincadeiras e as outras crianças acham que ele está imitando nenem e ficam mexendo com ele o chamando de bebe chorão. Ele me relatou que os amigos da escola não gostam dele e que o chamam de bebe chorão, já conversei com a professora e ela me informou que ele tem dificuldade em se socializar com as outras crianças.
Não sei o que fazer vc pode me dar uma luz?

Sandra Nascimento disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sandra Nascimento disse...
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Anónimo disse...

Boa tarde,
agradeço imenso o seu texto relativo a esta assunto tão delicado.
Procurei este tema porque procuro uma ajuda:
- Tenho uma filha de 8 anos, que tem ataques de choro antes de se deitar, porque se preocupa muito comigo e diz que tem muito medo de me perder. Tenho falado com ela no sentido de a acalmar, mas não está fácil. Saliento, que ela passou por uma situação de divorcio dos pais, há cerca de 1 ano e meio, e que no meio da instabilidade inerente a uma separação, penso que tivemos o bom senso de pouparmos o mais possivel as nossas filhas, tendo hoje um relacionamento saudavel e amigável. Como ajudá-la a dar-lhe confiança e a libertar esse medo permanente e quase obcessivo?
Muito obrigada

luciana disse...

Trabalho em uma Creche no qual tem um menino de mais ou menos 2 anos, encontra-se no Grupo II, e sempre que temos peça de teatro na Creche, com alguns personagens caracterizados, mostra-se com muito medo, chegando a tremer. A professora diz que ele tem que enfrentar este medo deixando-o berrando, por sinal fala para ele parar de chorar senão não ganhará colo...
Gostaria de saber qual procedimento correto perante um caso destes.
Meu email lucianamda@hotmail.com
Muito obrigada
Luciana

Anónimo disse...

Parabéns. Acho de extrema importância a existência de "lugares" onde possamos esclarecer as nossas dúvidas, ansiedades... medos.
Tenho uma filha de 8 anos, que ultimamente, começou a ter muitos medos. Quando se encontra em casa chama com alguma frequência por mim, para sabe onde estou, se estou noutro piso da casa, vem para perto de mim, abandonando o que estava a fazer, na escola, mostra-se muito ansiosa quando chega á hora da saída com receio que não a vá buscar e ultimamente tem revelado comportamento idêntico em festas de aniversário.
Gostaria, se possivel, de ouvir várias opiniões sobre como lidar com esta problemática.

Anónimo disse...

Estou-lhe grata pelo artigo, como devem estar todos os pais que leram as suas palavras. Mas se pudesse dar-me mais alguma ajuda eu preciso muito dela.
A minha filha faz 8 anos daqui a um mês e desde sempre lhe avaliarm um ano de avanço na parte cognitiva e imaturidade para a idade na parte emocional. Neste momento ela apresenta alguns medos que me preocupam. Ela tem pesadelos e durante o dia ela tem medo de andar pela casa, de se deslocar dentro da própria casa. Á noite ela fica na cama sem medo e adormece bem sem luz de presença, mas de dia ou de noite não se desloca na casa nem para ir ao wc sem me chamar, e está sempre a chamar-me o que é muito desgastante. Agradeço sua atenção. Emilia de T.Novas.

Anónimo disse...

Em primeiro lugar, parabéns pela dedicação e tempo que entrega ao esclarecimento das massas.

Não podia, porém, deixar de o avisar que está a ser vítima de plágio. Na procura de informação acerca de medos fui encaminhada para alguns sites. Entre eles, este ( http://educacaodeinfancia.com/o-medo-na-crianca/ )em que o texto da autora Raquel Martins é cópia literal do seu.

Pode não se importar com o assunto, mas achei meu dever reporta-lo.

Cumprimentos

Anónimo disse...

OLA;MEU FILHTEM 5 ANOS E TEM MEDO DO ESCURO,LADROES,MONSTRO EPANICO DE BEBADO ATE PARA IR NO BANHEIRO TEM TER ALGUEM COM ELE,NAO FICA SOZINHO NEM DENTRO DE CASA,FICA SENPRE AO MEU LADO E ACABA QUE NAO BRINCA COM NADA,E COMO MINHA SOMBRA.AS VEZES FICO IRRITADA PORQUE ELE NAO BRINCA SOZINHO;O QUE FAZER UM ABRAÇO.

jovem na sela disse...

parabens pela materia .muito esclarecedora vai me ajudar muito com minhas filhas ..obrigado msmo !!!